Sobre a transexual espancada até a morte em Fortaleza: #SomosTodosDandara



Hoje, 4 de março, a morte da transexual Dandara foi capa do principal jornal de Fortaleza, capital cearense onde o crime aconteceu. No bairro do Bom Jardim, Dandara foi espancada e morta por cinco homens, golpes na cabeça, pauladas, chutes e socos tiraram não só a vida, mas também a dignidade dela.

O crime aconteceu no dia 15 de fevereiro, mas só agora, cerca de duas semanas depois, a polícia e a mídia deram nota do ocorrido. Vista grossa? Desatenção? "Era só mais uma travesti", deve ter brandado alguma "autoridade" por aí. Toda a brutalidade foi devidamente registrada, um vídeo com pouco mais de 1 minuto exibe o sangue, a violência e a tortura que levaram Dandara a morte.

"Viado "féi", branda um dos assassinos, "A ‘mundiça’ tá de calcinha e tudo”, zomba outro. O circo estava feito e em redes sociais já circulavam as imagens; em algum tempo ganharam sites de notícias, pouco depois os jornais e logo em seguida a grande mídia. E se o espetáculo não estivesse alí para todo mundo ver, rever, voltar e pausar? Se a morte de Dandara tivesse viva apenas na lembrança dos que a mataram, hoje ela seria apenas mais uma travesti morta e seus assassinos impunes? 

IMAGENS FORTES


Dandara foi colocada num carrinho de mão, levada a um matagal e agredida até a morte, esse é o enredo final da trágica história. Drogas, crime, prostituição, nada disso justifica o direito de matar alguém, nada explica ou motiva tanto ódio. Dandara assim como a personagem negra, esposa de Zumbi, era uma guerreira, lutava pela vida, pela sobrevivência numa sociedade que insiste em dizer não para travestis, transsexuais e outras minorias.

Pouco tempo depois a tag #SomosTodosDandara tomava conta das redes sociais. Será que somos isso mesmo? Será que é válido assumir a dor de alguém na comodidade do meu sofá, na tranquilidade da minha casa na frente do meu computador? Graças a esses que em algum momento sentiram ou se mobilizaram pela dor dela, hoje o caso não foi enterrado, ao contrário, segue vivo estampando jornais. Até quando?

Sobre os criminosos, todos teriam sido identificados, um deles até já estaria preso, mas a polícia prefere manter o sigilo para não comprometer as investigações. Dandara se foi, mas deixou em pouco mais de 1 minuto um registro do ódio da humanidade contra ela própria. Que o #SomosTodosDandara sirva de exemplo de como precisamos lutar todos os dias para não sermos os próximos, para que a impunidade e o ódio não sejam maiores que a vontade de justiça.