Com final polêmico, Bodas do Diabo choca e se prepara para processos de conservadores



Texto: Neto Lucon
Via: NLUCON

A estreia do curta-metragem “Bodas do Diabo”, do diretor Ivan Ribeiro, nesta terça-feira (20), deixou os espectadores do Cine Olido, em Sâo Paulo, de boca aberta, maravilhados ou incomodados com o final chocante, ousado e sobretudo corajoso. Eles cutucam com a vara... uma bomba de lâmpada fluorescente o conservadorismo religioso e seus representantes na política.

O filme aborda a reação de duas travestis e um padre andrógino em 2020, depois que o Brasil é tomado pela teocracia – ou seja, quando o fundamentalismo religioso se estabelece como uma ditadura e os LGBT são, além de marginalizados, mortos à revelia (nada muito diferente do que já acontece atualmente, cinco anos antes).

A pegada é de Bastados Inglórios (2009), filme de Quentin Tarantino, que traz uma vingança dos judeus contra os nazistas. Sendo assim, Veronika (Bill Santos) e Shoshanna (Silvero Pereira) e O Padre (Valder Bastos/ a drag queen Tchaka) sequestram Jair Malafaia e Eduardo Feliciano, levando-os a um barracão para uma cerimônia de libertação.

Eles são orientados a se beijar, acabam se casando e... (sem spoiler, ok?) Tem que assistir para saber o desenrolar e dar a sua opinião.

Bem dirigida, com uma trilha sonora primorosa e fotografia impecável, a obra também está repleta de referências ligadas à comunidade LGBT brasileira. Dentre elas, a lâmpada fluorescente – que foi usada para agredir três homossexuais na Avenida Paulista em 2010 - e a imagem da travesti Viviany Beleboni crucificada na Parada do Orgulho LGBT 2015. O nome do filme foi tirado da revista “Fatos e Fotos”, que noticiou o primeiro casamento entre dois homens no Brasil em 1962, no Rio de Janeiro, chamando-o de “solenidade mais grotesca do século”.


PRECISAMOS LEVAR ESTA DISCUSSÃO

Após a exibição do curta, que contou com sala cheia, Silvero afirmou aos presentes que a arte é a maneira mais eficaz de promover transformações e combater o preconceito. “Política é importante, mas percebo que a arte tem esta resposta imediata”, disse. Experiência ele tem, uma vez que simplesmente arrasta multidões para a peça “BR TRANS” – o mais fantástico e comovente espetáculo teatral sobre travestis. Como Soshanna, só senti falta dos diálogos profundos e tocantes de Gisele Almodóvar.

Valder se livrou temporariamente da drag Tchaka, a qual interpreta a mais de 15 anos, e encarnou O Padre na sétima arte. A transformação é radical e, enrolado na bandeira trans, mostra sua versatilidade como artista. “Ele dá uma desmunhecada às vezes. Na gênesis da personagem, ele queria ser trans”, diz ao comentar sobre sua preparação. Já Bill surpreende como ator ao encarnar Veronika – cujo visual faz lembrar a famosa drag paulistana dos anos 90 – e que traz pitadas de humor. Ele rouba a cena.

“O que achou?”, perguntou Bill. “Chocante e provocativo”, respondi. “Era isso mesmo que queríamos”, devolveu ele. 


Bill afirma querer levar o curta para espaços além da comunidade LGBT – algo que muitos espectadores questionaram em off, justamente pelo receio de dar munição aos fundamentalistas, que nos últimos tempos tentam falar sobre "preconceito religioso" e "cristofobia". Afinal, como dissemos, o final é no mínimo polêmico. Bill defende a obra: “É lógico que não queremos chegar a este ponto e que se trata de uma obra de ficção, mas a gente precisa gerar essa discussão, falar sobre essa teocracia que estão tentando implantar no Brasil”. 

Um alerta aos LGBT e um espelho aos fundamentalistas. 

Embora dizem não saberem como o filme será encarado, eles aparentam estar preparados, sim, para as críticas e possíveis processos (já anunciados por Marco Feliciano, do PSC-SP, no jornal Folha de São Paulo). Tanto que nos créditos do filme - ao lado dos atores, diretor e equipe técnica - aparece o nome do advogado especializado em direitos LGBT Dimitri Sales como assessor jurídico. “É um filme militante”, explica Tchaka. "O meu trabalho começa agora", diz Sales.
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Editor Blog Para Mocinhos

Thiago Silva - Estudante de jornalismo, 20 e poucos anos, curioso e extremamente gay além de editor e criador do Blog Para Mocinhos. Nos ouvidos um bom eletro pop e um pouco de indie rock, nos olhos um filme qualquer e uma boa companhia, e no coração alguma coisa que nem eu sei o que é ainda.