Sobre as políticas de controle e combate ao HIV e o medo eterno da AIDS


Esse post deveria ser mais uma análise de como o Sistema Único de Saúde (SUS) trabalha e age no combate, controle e diagnóstico do HIV, mas na verdade se transformou numa experiência pessoal e bem íntima.

Era uma terça-feira qualquer e a minha meta era ir num posto de saúde aqui de Fortaleza, realizar um teste rápido para o diagnóstico do HIV. Eu já sabia que a prefeitura da minha cidade disponibilizava esse serviço em 4 postos de saúde, onde em 30 minutos qualquer pessoa poderia fazer o exame e saber o resultado, mas o que eu queria era sentir isso na pele.

Cheguei umas 8 horas, e o posto já estava lotado; a primeira barreira foi perder a vergonha de perguntar ao vigia onde era a sala da coleta de sangue para testes de HIV, vencido isso e a impressão de que alguém me olhava torto fui no caminho e me deparei com uma sala simples, cheia de portas nas laterais e um balcão com uma senhora de meia-idade.

Além do HIV, são realizados teste de sífilis e hepatite B e C

Senhora Socorro, esse era o nome dela, fiz que estão de anotar. Uns 45 anos, meio automática, talvez desumanizada pelo tempo e repetitividade do ofício, mas mesmo assim simpática e atenciosa em responder minhas perguntas. Cadastro feito, e com a senha em mãos, era só esperar me chamarem e depois em mais 30 minutos teria o resultado em mãos.

Foi ai que tive a oportunidade de olhar para todos ao meu redor. Imaginar que todo mundo alí era soro positivo seria leviano de mais da minha parte, mas esse é quase sempre o primeiro pensamento que lhe ocorre, ou o medo de que alguém pense o mesmo sobre você. 
Uma travesti de 30 e poucos anos, alta, e de cabelos loiros, impaciente procurava algo na bolsa; duas moças jovens não escondiam o nervosismo, em seguida um moreno lindo, super bem vestido se direcionou a uma das portas e conversou algo com um dos enfermeiros, confesso, trocamos olhares [ele era lindo]. Do meu lado uma senhora de meia-idade que poderia ser a minha mãe conversava com uma amiga, e foi aí que ouvi o relato: "Ele era mulherengo, eu sabia, mas nunca imaginei que eu ia pegar isso, ainda mais do meu marido. Ainda sou casada com ele, e ele também é positivo".

A primeira coisa que aprendi alí foi que HIV é algo que atinge a todos, heteros, gays, homens, mulheres, ricos e pobres, e por curiosidade voltei a recepção e tive a certeza do que imaginava. Segundo a Sra. Socorro, não havia um perfil de pacientes, vinha todo tipo de gente, e o número era assustador, em média 18 pessoas só no turno da manhã, iam ao local fazer o teste.

Foto do local onde são realizados os exames e entregues os resultados. 

Nem percebi o tempo passar, era chegada a minha vez de fazer a coleta. Numa sala um grupo de enfermeiros super simpáticos fizeram um furinho no meu dedo, recolheram algumas gotas do meu sangue e pronto, era só esperar uns 30 minutos e tudo estaria resolvido. Ou nem tão resolvido assim.
Para o meu desespero todos os pacientes receberam seus resultados, menos eu. Daquela sala de porta cinza eu ví sair gente sorrindo, chorando, sendo amparado pelo amigo que esperava do lado de fora, ou simplesmente sem nenhuma reação.

Quase 40 minutos e meu resultado não estava pronto, na mesma hora a primeira coisa que pensei foi: deu positivo. Engraçado imaginar como toda a sua vida pode mudar por causa do que vai estar escrito naquele papel, se bem que HIV não é mais o monstro que pensamos, não há cura, mas há tratamento, controle, e várias pessoas vivem muito bem, mesmo sendo diagnosticadas com a doença. Por fim recorri a Sra Socorro e perguntei pelo meu resultado, ela quase como um robô disse que tivesse calma, daqui a pouco deveria sair o resultado, e foi isso o que aconteceu.

Na sala de porta cinza a médica me chamou, eu praticamente tremendo sentei e encarei ela já com os olhos beirando ao desespero. Foi dai que começou uma conversa bacana, perguntas sobre minha vida, o que gostava de fazer, amigos, e sem eu nem perceber ela tocou no assunto sexo. Número de parceiros, vida sexual, proteção e então: "Pois é Thiago, seus exames todos deram negativos", foi o que a médica disse, acompanhado da minha expressão clara de alívio.

É estranho pensar que sempre rola esse medo na hora de receber o teste, mesmo sem razão alguma para isso. Por fim eu tinha realizado o que me foi proposto, e aprendido uma lição importante: se cuidar é necessário e como a médica disse " na noite todos os gatos são pardos" por isso, cuidado.
Fica aqui a minha sugestão para cada um de vocês: procure esse serviço na sua cidade, ele já existe em vários locais do país, é rápido, fácil e importante. Me programei para ir lá mais vezes, descobri que no caso dos pacientes positivos há todo um acompanhamento tanto médico quanto psicológico; palestras, grupos de ajuda, rodas de conversa.
Pensar no HIV como um monstro é compreensível, mas não sei se nessa época que vivemos, ainda é aceitável. 
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Editor Blog Para Mocinhos

Thiago Silva - Estudante de jornalismo, 20 e poucos anos, curioso e extremamente gay além de editor e criador do Blog Para Mocinhos. Nos ouvidos um bom eletro pop e um pouco de indie rock, nos olhos um filme qualquer e uma boa companhia, e no coração alguma coisa que nem eu sei o que é ainda.