Tom Bianchi e os registros de uma paraíso gay


Senta, que depois de tantos bafos, fuás e fofocas, vamos falar um pouco de cultura: gay é claro.

Imagine um lugar onde gays viviam em paz, amor e harmonia. Festas, bebidas, e sexo sem nenhum preconceito. Esse lugar existiu, foi na década de 70, uma ilha nos Estados Unidos chamada Fire Island Pines. Essa comunidade nasceu com a intenção de agregar o público gay em um único lugar, claro além do sexo, haviam drogas e música, quase como uma party e um after eternos.

Em meio a isso tudo, estava o fotógrafo Tom Bianch. Atualmente ele é personagem conhecido da cena gay, trabalhou como advogado em Nova York e Washington, passou a maior parte da vida lutando contra a AIDS e contra as atitudes bizarras que os heterossexuais têm em relação à cultura gay, além de ser co-fundador de uma companhia de biotecnologia que pesquisa medicamentos para a AIDS. Tá pouco? Espera que agora vem o melhor, durante o período em que esteve na Fire Island Pines,de 1975 à 1983, Bianch registrou alguns momentos do cotidiano da comunidade usando apenas uma polaroide.

A imagens, além de lindas, conseguiram captar todo o ar de liberdade, sexo e erotismo que reinava no local. E finalmente hoje, cerca de 30 anos depois, a fotos foram reunidas em um livro intitulado "Fire Island Pines – Polaroids 1975-1983". O resultado vocês conferem aqui, e quem estiver afim de comprar, o livro está disponivel no Amazon.com [se alguem quiser me dar um e presente, eu juro que vou amar].

O pessoal do site VICE fez uma entrevista com o próprio Bianch, quem tiver afim de ler, tá tudo depois do pulo e claro, tem mais fotos "safadinhas" também.




VICE: Oi, Tom. Como vai? 
Tom Bianchi: Muito bem, acabei de tomar um delicioso café da manhã na piscina. Estou pronto para começar.

OK, vamos lá. Você pode começar contando como o livro surgiu? 
Você precisa visualizar que cresci e saí do armário na região central dos Estados Unidos numa época muito diferente da sua. O mundo em que vivíamos nos considerava uns pervertidos. Logo, o brilho de Fire Island existia justamente porque o lugar foi construído por pessoas que imaginavam um mundo diferente e resolveram criá-lo. Entalhamos um lugarzinho só para nós, onde pudéssemos ficar seguros, rir e brincar uns com os outros na praia sem nenhum tipo de julgamento ao nosso redor. E isso atraiu os melhores e mais brilhantes gays dos Estados Unidos — particularmente, por causa da proximidade com Nova York, o centro de muita cultura, moda, estilo e cinema. Foi uma época muito glamorosa.

A criação dessa vizinhança foi planejada ou circunstancial? 
A ilha é uma barreira de 58 quilômetros de comprimento que fica a quilômetros de Long Island, separada em pequenas comunidades por uma extensão de dunas. Os Pines, que é uma dessas pequenas vilas, é uma rede de 1,6 quilômetros de extensão de passarelas conectando cerca de 600 casas construídas com postes telefônicos enterrados na areia. Naquela época, alguns corretores de imóveis começaram a construir nesse terreno virgem, e aconteceu que o lugar começou a atrair nova-iorquinos boêmios; escritores e artistas que vinham viver em pequenas cabanas. Não era para ser uma comunidade gay, mas depois fez sentido que isso tenha se transformado em nossa casa.

E você estava lá, com uma câmera Polaroid novinha em folha. 
Eu era advogado da Columbia Pictures na época. Numa conferência executiva em Miami, todos ganhamos Polaroids SX-70. Era uma coisinha pequena, de plástico, que levei comigo para Fire Island mais tarde e comecei a tirar fotos de meus amigos. Na época, as pessoas não eram assumidas, então, como você pode entender, todos eram muito cautelosos ao serem fotografados. O mais importante da câmera é que ela me permitia tirar uma foto e, minutos depois, colocá-la na mesa para que todos a vissem. Isso deixava as pessoas mais confortáveis e logo formei a intenção de mostrar ao mundo quão incrível era a capital da Gaylândia. Ou, pelo menos, a parte mais provinciana dela [risos].

Folheando o livro, é impossível não reparar em como todo mundo era incrivelmente bonito.
Bom, são dois os motivos. Os gays da minha geração eram chamados de pansies ou poofs. Crescemos com sentimentos muito negativos sobre nós mesmos. Foi também nessa época que cada vez mais pessoas começaram a descobrir as academias. E cada vez mais caras foram da aparência comum para “Meu Deus, que gato!”, e, meio que sem pensar, todo mundo tentava ter o corpo o mais próximo do perfeito possível. De repente, emergiu essa comunidade de homens realmente bonitos e todos eles lotavam aviões, trens e ônibus para Fire Island todo final de semana. Ao mesmo tempo, eu queria que meus parceiros fossem homens realmente bonitos e sensuais. Nunca quis que achassem que eu estava usando minha câmera para seduzir as pessoas, então, a maior parte das fotos íntimas são de gente com quem eu tinha relações.

Dá para perceber. Os modelos de suas fotos parecem muito à vontade com seus corpos e com a lente. Não sei se me sentiria tão confortável em posar nua para alguém com quem não estivesse transando. 
Você precisa saber que será amado, não explorado.

Falando sobre nudez, na introdução do livro você relembra um episódio em que um cara se aproximou de você na praia enquanto você fotografava conchas, propondo que você tirasse algumas fotos sensuais dele. Em outro ponto do livro, você menciona que Sam Wagstaff também lhe disse para deixar o livro mais explícito depois de ter visto a primeira edição. Você acha que essa insistência das pessoas com nudez tem algo a ver com o fato de que a comunidade teve que reprimir sua identidade por tanto tempo? 
Sim, com certeza, essas foram histórias pessoais de transformação. Desenvolvemos esse senso de comunidade e começamos a nos ver como pessoas realmente especiais, indispensáveis para a cultura em que vivíamos. E, no final das contas, o que nos unia era o desejo.

Íamos para esse lugar transar com caras divertidos por quem nos sentíamos atraídos. Íamos pelo sexo e pela dança. Você dançava até achar o parceiro que ia preencher sua cama naquela noite. O desejo é mais profundo do que a gravidade. A gravidade simplesmente mantém os planetas unidos, o desejo une os humanos para que assim eles possam criar coisas juntos. A importância da nudez e o poder do desejo físico que nos uniu não podem ser subestimados. 

E, então, apareceu o HIV. A sensação que tive ao ler seu livro é que a doença fez o movimento pelos direitos gays retroceder em alguns anos.
Acho que foi o oposto. Acho que o que aconteceu foi que éramos garotos festejando, achando que éramos intocáveis e imortais. A AIDS nos forçou a crescer.

Foi um despertar, então?
Foi um despertar. Não que estivéssemos fazendo algo errado. Estávamos fazendo o que garotos fazem. Estávamos jogando, e é muito importante aprender a jogar. O que a AIDS fez foi mudar completamente a maneira como víamos a nós mesmo. Ao mesmo tempo, os heterossexuais também começaram a reconhecer o horror de sua discriminação. Histórias começaram a circular sobre pessoas com HIV positivo sendo expulsas de casa, de suas comunidades e não sendo aceitas em hospitais. Meus olhos ficam cheios de lágrimas quando falo disso porque foi um holocausto. Era inacreditável. Tivemos que nos posicionar e fazer alguma coisa a respeito.

E você fez.
Muitos se levantaram na ocasião para lutar contra isso. Nosso grupo em Los Angeles, por exemplo, formou uma companhia de biotecnologia para desenvolver novas terapias para tratar o HIV. Passei sete anos intensos da minha vida financiando esse esforço e a pesquisa. Mas tudo isso mudou nosso foco.E tem mais, na época em que o fiz, não consegui que o livro sobre Fire Island fosse publicado. Ele era considerado gay demais. Quando David Peterson, meu parceiro na época, morreu de AIDS em 1988, decidi fazer um livro como um memorial e testemunho de que ainda estávamos vivos e éramos essenciais. Aquele livro foi Out of the Studio. Fotografei em preto e branco porque achei que sairia mais barato do que um livro em cores. Eu estava errado. De qualquer maneira, Out of the Studio se tornou um grande sucesso e a razão disso foi porque éramos uma comunidade profundamente em luto e com um medo enorme. Aquele livro foi uma mensagem de esperança. Ele dizia: Continuamos intactos, continuamos belos, continuamos poderosos e vamos conseguir superar isso. E todos os livros lançados depois desse são sobre esse tipo de autocapacitação. 

O que aconteceu com Pines?
Logo depois do surto, deixamos a cidade em estado de choque, pois nossos amigos começaram a morrer um por um. Quando voltávamos para lá de vez em quando, a conversa sempre girava em torno de “Você ouviu o que aconteceu com Fulano?”, e se tornou algo impossível de absorver, então eu me afastei. Voltando para minha casa em Pines um pouco depois, só senti que... Meus amigos tinham partido.

Acabei te deixando deprimido. Vamos terminar de um jeito feliz. Conte uma história engraçada sobre Pines.
OK, são muitas. Essa foi uma das primeiras vezes em que estive lá. Esses caras estavam dando um jantar na casa deles. Eles tinham preparado peru havaiano com pedaços de abacaxi. Depois do jantar, um dos caras trouxe uma cadeira dobrável, colocou em cima da mesinha de centro e colocou um disco de música havaiana para tocar. Aí esse outro cara saiu do quarto, usando um daqueles maiôs dos anos 30 e uma daquelas toucas de natação de borracha dos anos 50 com cachos em relevo. E ele começou a fazer um número aquático da Esther Williams na cadeira. Foi lindo. E naquela hora eu pensei: Isso é loucura. E é isso que quero fazer da minha vida. Quero estar cercado por essas pessoas loucas, lindas e maravilhosas.


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Editor Blog Para Mocinhos

Thiago Silva - Estudante de jornalismo, 20 e poucos anos, curioso e extremamente gay além de editor e criador do Blog Para Mocinhos. Nos ouvidos um bom eletro pop e um pouco de indie rock, nos olhos um filme qualquer e uma boa companhia, e no coração alguma coisa que nem eu sei o que é ainda.